
Um
símbolo português, uma marca de prestígio, tão genuíno e
natural quanto soberbo.
Numa
fria e húmida madrugada, acreditámos ser possível
vislumbrar ao longe a poderosa e firme silhueta, a qual
parece querer destacar-se da mancha esbranquiçada que
vem descendo a encosta.
Por
entre balidos e chocalhos, através do azinho disperso e
bem na dianteira do rebanho amerinado, à medida
que a distância se encurta, vimos surgir um animal de
robusto porte. Pouco a pouco, damos conta que o mesmo
vai dando forma a uma harmoniosa combinação de força e
tranquilidade, que quase se confunde com vaidade, tal o
compromisso de confiança, que de uma forma simples e
natural nos consegue transmitir.
Quando
os contornos se tornam mais distintos, notamos então que
num tronco quase compacto, manchas pardas raiadas de
tons escuros se destacam na pelagem branca e suja, onde
uma poderosa e maciça cabeça se eleva, adornada de uma
mascara negra, que nos leva a duvidar se ainda existirão
ursos no Alentejo.
Sem
pretendermos exacerbar a mais fiel imagem de um cão, que
constituí parte integrante de um mundo rural e antigo
que se vai tornando raro, não nos parece descabido ou
sequer redundante, equiparar o quadro assim traçado, à
mais perfeita união que é possível criar entre pujança e
segurança, impregnada de muita serenidade e simpatia.
Admitimos que este facto resulta provavelmente de algum
impacto que se sente, ao descobrimos que em presença do
dono, e sem nunca manifestar o mínimo sintoma de
agressividade, a força e poder deste cão parecem
transforma-se em amizade e confiança.
Será
por certo essa força e esse poder, que lhe permite uma
conduta pacífica e aparentemente despreocupada, a qual
lhe transmiti a expressão tão calma, quase meiga, que
inevitavelmente deixa transparecer no seu modo de olhar.
O
Rafeiro do Alentejo tendo a origem num mundo rural,
essencialmente ligado à pastorícia, constituiu desde
sempre o mais leal e generoso companheiro do pastor, do
maioral, do guarda do monte, ou seja do homem da terra a
quem obedece com inteligência e firmeza. Não necessita
para tal exibir grande aparato, sendo eficiente e
discreto, embora reagindo sempre com coragem.
Porque
na realidade se assiste a alguma desertificação no meio
rural, tornou-se comum encontrar hoje este cão em
ambientes bem mais restritos e urbanos, conseguindo no
entanto adaptar-se aos novos horizontes, sem contudo
perder a sua índole natural. Trata-se sem dúvida de um
cão emocionalmente estável e confiável, não manifestando
agressividade despropositada nem timidez comprometedora.
Sendo
considerada raça de grande porte, destinada a zelar
pelos bens que estão à sua guarda, pretende-se que
estruturalmente possua construção sólida e equilibrada,
não apresentando defeitos que possam comprometer essa
capacidade.
Numa
perspectiva morfológica, devem ser tidas em conta as
várias componentes biométricas, que permitem
caracterizar os traços específicos da raça, os quais
marcam visivelmente a sua tipicidade, conforme o estalão
oficial.
No que
se refere às ATITUDES COMPORTAMENTAIS, julgamos prudente
atribuir-lhes a maior relevância, na medida em que podem
esclarecer muitos aspectos no modo como poderá ser o seu
relacionamento com o dono e respectivo agregado
familiar, facto que por vezes constitui motivo de
preocupação, se considerarmos algumas situações
possíveis de ocorrer.
Embora
já tenhamos abordado alguns aspectos relacionadas com as
atitudes próprias da raça, importa acrescentar, que para
tal apenas nos referimos a exemplares isentos de
quaisquer taras ou perturbações do foro genético,
propondo-nos assim enquadrar essas mesmas atitudes,
mediante o uso de nomenclatura ajustada e objectiva.
Tendo
ainda em conta o conhecimento adquirido, no contacto que
ao longo de algumas décadas fomos acumulando, o qual nos
permitiu criar e acompanhar elevado número de exemplares
Rafeiro do Alentejo, considerámos oportuno dar a nossa
opinião sobre o modo como poderão ser classificadas as
atitudes normais desta raça, no seu estado adulto.
·
Quanto ao CARÁCTER, é notório uma
predisposição natural para defender o que considera
pequeno ou indefeso, de tudo quanto possa representar
uma ameaça. Este facto, aliado à coragem e à
generosidade que nos oferece, leva-nos a classificar
tais atitudes como reveladoras de grande NOBREZA.

·
No que respeita ao TEMPERAMENTO, o
qual se manifesta naturalmente através do instinto, não
podemos esquecer estar perante um animal de grande
corpulência, cuja principal aptidão é a de guardar.
Exerce contudo, a sua acção vigilante, estritamente no
espaço que é confiado, o qual considera como seu
território. Porque executa tal tarefa de forma eficiente
e calma, sabendo respeitar os limites físicos
estabelecidos, leva-nos a considerá-lo um cão
preferencialmente TERRITORIAL.

Ao encaramos o COMPORTAMENTO, ou
seja as atitudes que normalmente exterioriza no ambiente
familiar onde se sente integrado, é bem patente a
ternura que concede a todos os que o compõe, embora seja
frequente, que o faça de modo mais apaixonado com as
crianças desse agregado. De salientar o facto de apesar
da firmeza que o caracteriza, quando alguém estranho o
confronta nos seus domínios, manifestar fora do seu
território uma humildade e cordialidade, isenta de
quaisquer conflitos. Tal evidência leva-nos a considerar
esta combinação de atitudes, como uma demonstração de
grande DIGNIDADE.

Referimos por último o
aspecto que consideramos poder constituir o traço mais
genuíno desta raça. A EXPRESSÃO deste cão, não é
mais do que o somatório das atitudes já mencionadas, ou
seja um misto de força, ternura, confiança e nobreza,
que lhe confere aquela TRANQUILIDADE que tanto
admiramos, a qual nunca deixaremos de realçar.

Tentámos deste modo, transmitir a mais
fiel e legítima imagem desta raça, a todos aqueles que
ou a desconhecem, ou não tiveram até hoje oportunidade
de a poder avaliar, acreditando nunca vir a defraudar
expectativas, que porventura possamos ter despertado.
Consequência da total confiança e da muita estima que
este cão sempre nos mereceu, leva-nos a afirmar que o
Rafeiro do Alentejo constitui por certo uma herança
viva e por demais valiosa, razão suficiente que sempre
nos levará a destacar as suas qualidades e as suas
atitudes, dando de algum modo um contributo para a
continuidade e preservação de tão nobre raça.
José Abreu Alpoim
Novembro 2010
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