Trilogia de uma velha paixão
Por certo vão poder
entender a razão que hoje me levou a usar uma trilogia
como tema desta simples “confidencia”a qual julguei ter
interesse comentar. Ainda que possa parecer um termo um
tanto estranho creio fazer algum sentido, sendo portanto
fácil de aceitar tendo em conta o seu verdadeiro
significado.

Trilogia não é mais de que um conjunto de três obras,
actividades, tendências ou apenas dedicações levados a
cabo por uma determinada pessoa sobre um tema comum, e
deste modo fácil concluir a qual pretendo referir-me.
Costuma dizer-se “branco é galinha o põe” e como é
evidente, desta vez o ovo irá transformar-se
miraculosamente no meu velho companheiro, o Rafeiro do
Alentejo.
Sendo assim, poder -se- ia considerar ainda que em
termos figurados, que a referida trilogia corresponderia
a um triângulo em que cada um dos vértices representaria
uma das três perspectivas que em diferentes fases me têm
ligado a este cão.
O primeiro destes supostos vértices, julgo poder afirmar
ter constituído ao longo do tempo o ponto mais forte,
relevante e duradouro, até mesmo o mais apaixonante, o
qual me proponho enquanto física e mentalmente me for
possível nunca querer abandonar , ou seja o de CRIADOR
DO RAFEIRO DO ALENTEJO.
Trata-se de uma empatia e dedicação com mais de 50 anos,
a qual gostaria de poder dar continuidade por mais
alguns , embora ciente das dificuldades que nem sempre é
possível evitar. Considero no entanto indispensável que
para as ultrapassar seja necessário poder contar com
grande estima e empenhamento, os quais conduzem
inevitavelmente ao maior valor, prestígio e admiração de
um qualquer bem que se pretende preservar.
Oxalá esse espírito possa estar sempre presente em todos
os criadores da raça, que lhes permita assim entender e
respeitar a nobreza de carácter que há muito atribuímos
a este cão.

É igualmente indispensável que se viva um clima saudável
sério e transparente , que se partilhem não só os
sucessos de cada um, como sejam também dados a conhecer
insucessos que do mesmo modo a todos poderão ser úteis.
De facto constituímos uma comunidade tão restrita, que
não parece ser difícil imaginar um tal clima de
aproximação e dialogo sobre os vários aspectos mais
marcantes para a raça. Dirijo-me evidentemente a todos
aqueles para quem o Rafeiro representa algo mais do que
uma simples oportunidade de tirar alguns proveitos .
Sabemos que não é tarefa fácil criar uma raça que há bem
poucos anos atravessou tão sérias dificuldades e que
graças ao empenho de uns tantos foi possível salvar da
extinção .
Tenhamos também em conta, que se torna não só
dispendioso com praticamente inexequível cada um por si
poder dispor de um número suficiente de animais que
permita pensar em selecção e melhoramento. Não creio
igualmente, que da parte das Entidades Oficiais ligadas
ao sector possa alguma vez existir sensibilidade e
interesse, ou muito menos esperar das mesmas qualquer
apoio em prol das raças caninas autóctones.

Acredito com algum realismo, que só com a vontade e
persistência dos criadores reunidos e organizados
através da sua associação, será possível superar todas
as dificuldades bem como dignificar e dar a conhecer
este nosso património tão vivo quanto valioso.
A oportunidade que nos foi dada de podermos conhecer e
reproduzir uma raça tão ímpar e majestosa, será por
certo suficiente para alimentar o orgulho e a vaidade
que nunca nos permitirá ousar desistir. Por outras
palavras, creio estar sempre presente em cada um de nós
a esperança de com nosso esforço podermos contribuir
para uma imagem mais perfeita deste cão, quiçá
materializada na expectativa de uma nova “estrela” do
nosso canil.
Com pouco mais de vinte cinco anos o segundo vértice
deste triangulo devo sinceramente considera-lo como “o
elo mais fraco”, ocupando cronologicamente a segunda
posição .
Sem grande convicção poderei denomina-lo como de
APRESENTADOR DA RAÇA em certames caninos.
Constitui sem dúvida o aspecto menos conseguido e
estimulante na minha relação com esta raça, aquele que
sempre menos me preocupou e talvez também por isso,
salvo uma outra excepção, poderá ter os dias contados.
Alguns dirão que talvez um tanto teimosamente descurei
demasiado esta faceta de apresentador, o que aceito sem
qualquer remorso. A verdade que ao longo destes anos
quase me limitei a expor os meus cães nos concursos
realizados pela ACRA, esquecendo -me de fabricar
campeões em exposições onde as regras exigem uma outra
preparação.
Com esta “mania” poderei ter prejudicado os meus
próprios exemplares, não lhes dando oportunidade de se
exibirem graciosamente nos melhores palcos, mas creio
que pelo seu bom carácter já há muito me terão perdoado.
Sempre considerei primordial uma grande exigência em
termos de tipicidade, corpulência, proporções e
equilibro, para além de um bom carácter. Julgo no
entanto que a par destas exigências é de louvar quem
optou igualmente por acautelar uma apresentação cuidada,
na medida em que aceito ser importante para a raça a sua
presença nos grandes certames caninos tendo em vista a
sua divulgação.
Quanto ao terceiro vértice
do suposto triangulo, o qual quanto à longevidade ocupa
a mesma posição não indo além dos últimos sete anos , é
designado por JUIZ DA RAÇA .
Para além de constituir o mais recente “compromisso” não
deixa de ser dos que mais me preocupa em termos do
exercício do mesmo. Quero referir -me à responsabilidade
inerente ao acto de quem se proponha avaliar esta ou
outra raça, uma vez que daí inevitavelmente poderá
resultar para as mesmas um contributo positivo ou
negativo . Do meu ponto de vista, que julgo todos
deverão concordar, exige-se da parte de quem aceita tal
desafio duas condições indispensáveis, seriedade e
conhecimento, caso contrario todos sairão prejudicados.
Já basta ao nosso Rafeiro o período difícil que
atravessou até à década de noventa, para que na fase
actual que considero de alguma expansão e mais
uniformidade, surjam critérios de pouca definição por
vezes mesmo contraditórios, que tanto atrapalham
principalmente novos criadores.
Quando se trata de apreciar um exemplar, não nos parece
muito correcto faze-lo procurando apenas possíveis
defeitos. Há que procurar igualmente destacar
qualidades, estabelecendo como que uma escala que
permita ter uma noção correcta em que medida umas e
outras mexem mais ou menos com a tipicidade ou seja com
a melhor ou pior caracterização daquela raça.
Considero muito pertinente proceder-se á analise e
discussão da maior ou a menor incidência que qualquer
desvio poderá assumir na imagem que corresponde ao mais
fiel padrão de uma raça , dado que nem todos se revestem
de igual importância. Este assunto creio que terá todo o
cabimento num debate a promover pela ACRA e onde possam
estar presentes não só criadores da raça como igualmente
juízes que com ela mais contactam.
Quanto ao carácter deste cão, o qual é de certo modo
apreciado através do seu comportamento, devemos ter em
conta que difere bastante consoante é avaliado no seu
território ou fora dele. Julgo que este último, não será
muito influenciado por treino mais ou menos cuidado para
ringue, pois que para alem do seu temperamento
interligado ao factor hereditariedade, está também muito
marcado pelo maior ou menor isolamento em que vive, não
esquecendo o tipo de socialização a que é submetido.
Gostaria ainda de referir um aspecto que embora recente
creio que vem assumindo enorme importância, na medida em
que queiramos ou não passou a ter um peso acrescido na
avaliação desta raça.
Devemos recordar que nestes últimos anos os dirigentes
da Canicultura Nacional “lograram descobrir novas raças
portuguesas “, nem sempre bem explicadas e pior
compreendidas, mas que pelo facto existirem e serem
entusiasticamente apoiadas e divulgadas não podemos de
modo algum ignorar .
Ainda que de modo algum tivéssemos contribuído para tal,
temos consciência que se tratou de um movimento o qual
pela sua força e dinâmica nunca acreditamos poder evitar
ou sequer travar, pelo que agora nos resta apostar e
mesmo exigir que se marquem e se respeitem diferenças
tão evidentes quanto seja possível .
Não é também segredo, que a nova raça a que me refiro
foi durante alguns anos falsa e obscuramente avaliada
como se de um rafeiro se tratasse, até que subitamente
com algum desplante e ousadia lhe foi atribuído um nome,
uma região , um estalão e até com toda a pompa, um
livro.
Acontece que estas “ conquistas” são normalmente
conseguidas à custa de raças já existentes, não fazendo
nenhuma cerimonia em lhes roubar algum espaço e até
mesmo a própria imagem, como é escandalosamente
constatável nas fotografias do livro a que me referi .
Inevitável se torna hoje destacar essas fronteiras, as
quais se devem ser facilmente perceptíveis pela análise
das suas principais características . Exige-se ainda que
estas não sejam apenas visíveis para os “autores da obra
“ ou outros entendidos, mas sim para qualquer um que lhe
interesse saber onde uma raça acaba e outra começa.
Assumem deste modo grande relevância os vários
parâmetros morfométricos, como sejam medidas, alturas,
comprimentos, diâmetros, para alem dos índices ou outras
formas de caracterização, os quais devem estar bem
presentes sempre que se avalia uma qualquer raça,
sobretudo quando se observam algumas semelhanças com
outras afins.
Está provado, que para julgar não basta ler um estalão e
fixar uns tantos aspectos, os quais até podem não ser
aqueles que se revestem da maior importância para a
definição da tipicidade mais correcta.
Concordo não se tratar de tarefa fácil avaliar uma raça
para qual embora estando credenciado não se conhece o
suficiente. Este facto aliás, tem sido motivo de algumas
reclamações por parte de criadores e expositores, umas
vezes justas outras não .
Reportando-me ainda a este facto, tem-se verificado que
em alguns concursos da raça se nota principalmente por
parte de criadores mais recentes um certo desanimo que
os leva por vezes a desistir, resultado de critérios de
apreciação nem sempre correctos e bem fundamentados.

Esta realidade pode assumir grande importância na medida
que a renovação se faz não só descobrindo novos
exemplares, mas essencialmente com a presença e
participação de novos e potenciais criadores. São eles a
quem cabe dar continuidade ao trabalho já desenvolvido,
razão porque se tornam indispensáveis ao futuro e
preservação de qualquer raça.
Por este motivo, o terceiro vértice desta trilogia que
de um certo modo completa a minha relação com esta
soberba raça, representa presentemente o aspecto mais
inquietante deste meu “compromisso”, não só pelo
respeito que todos os criadores me merecem, como pelo
facto de não querer contribuir para o desanimo ou
desistência de alguns.
A terminar, resta-me admitir que não pude prever e
evitar que este meu pequeno “desabafo” sob a forma
triangular se viesse a alongar tanto, facto que desde já
me penitencio. Julguei no entanto, que teria interesse
abordar aspectos que considero relevantes e actuais para
todos aqueles que como eu a este nobre cão se vêm
dedicando. Trata-se afinal de um cão que ao longo da
vida sempre me tem atraído e acompanhado, pelo que com
alguma vaidade, posso afirmar, lhe continuarei a chamar
“de minha velha paixão”.
José Abreu Alpoim
Outubro 2009
